Os recursos naturais disponíveis estão cada vez mais limitados e os números estão aí para o mostrar.


Em 2015, as conclusões do relatório “Rumo a um futuro com segurança hídrica e alimentar”, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), apontavam para que, em 2050, dois terços da população mundial fosse afetada pela escassez de água. Atualmente, de acordo com o mesmo documento, essa escassez atinge 40% da população global. Por seu turno, um estudo da Agência Europeia do Ambiente sobre Portugal revelou que em 2015, a nível nacional, foram registadas 6690 mortes resultantes da inalação de partículas e poluentes. São números que fazem aumentar a consciência – na sociedade civil mas também entre os responsáveis das empresas – que garantir uma gestão ambientalmente sustentável é essencial. A maior consciencialização por parte dos responsáveis das empresas tem sido acompanhada pelo esforço de desenvolver soluções tecnológicas que permitam uma gestão mais sustentável, com a IoT (Internet das Coisas) e o tratamento de dados a terem um papel fundamental na criação destas soluções.

“Honestamente, da primeira vez que li o relatório da Agência Europeia do Ambiente achei que os números não estariam corretos, mas infelizmente estão. Estamos a falar de mais de 500 mortes por mês”, afirma Mário Sousa, da direção de Produto da PT Empresas, empresa que nos últimos anos tem vindo a desenvolver várias soluções tecnológicas com foco na sustentabilidade.

“A sustentabilidade passou a ser um fator de preocupação dos decisores das empresas que a utilizam como fator de diferenciação. Os nossos clientes querem posicionar-se no mercado não só pelo produto em si mas também pela sua preocupação e contributo para a sustentabilidade ambiental”, afirma Mário Sousa.

A telemetria da água foi uma das áreas exploradas por estas soluções. “Portugal é dos países com maior perda de água nas condutas: dos 100% que entram na pipeline inicial, apenas 50% chegam a casa dos munícipes, a outra metade é perdida no percurso. Há municípios com perdas superiores a 70%”, lembra Mário Sousa, que aponta a idade vetusta das condutas, a dificuldade na deteção exata das fugas e a falta de investimento em manutenção e reparação, como as causas principais para o problema.

Existem diferentes tipos de soluções nesta área. Uma delas consiste na instalação de sondas ao longo de toda a rede, que permitem perceber de forma exata onde estão a ser sofridas perdas. “É possível fazer uma gestão muito mais eficaz das condutas e atuar com reparações uma vez que há uma noção mais concreta de onde acontece a perda”, destaca Mário Sousa para quem esta é uma solução que pode ser mais ou menos onerosa consoante a dimensão da rede. “Individualmente as sondas não são caras, mas para fazer a gestão eficaz de um município já com alguma dimensão é necessário, pelo menos, um milhar de sondas, o que faz aumentar a dimensão do investimento em municípios maiores”, diz.

“Em muitos casos a prioridade é a distribuição da água em baixa, já mesmo no município e aí a telemetria da água também ajuda através do report de balanço hídrico, uma solução em que é colocado um aparelho num contador que é uma espécie de totalizador de onde sai a água para abastecer um número grande de casas, e depois é feita a comparação do que saiu com o que passou nas casas e analisam-se as diferenças. É uma solução mais barata e permite detetar perdas a nível local”, explica Inês Ferreira, responsável de IoT da PT Empresas.

Existem ainda sistemas, como o adotado pela Infralobo, no condomínio de Vale do Lobo, que permitem não só uma melhor gestão do consumo como o combate à fraude. “Foi instalada nos contadores das habitações uma solução que permite fazer a leitura das contagens, que passa a ser feita de forma automática sem necessidade de leitura por parte de um funcionário ou comunicação por parte do cliente. A leitura é comunicada a uma base de dados e tem a vantagem de permitir uma faturação exata, com base nos consumos reais”, explica Mário Sousa que indica ainda outras vantagens do sistema como a possibilidade de avisar o cliente no caso de uma utilização anómala, nomeadamente consumo excessivo. “Isto é possível porque o sistema regista a utilização-padrão e quando regista algo que não está de acordo com a norma lança um alarme para o utilizador e para a empresa de gestão”, explica o responsável da PT Empresas que acrescenta à lista de vantagens a possibilidade de detetar fraudes como “contador reverso”, que são reportadas à empresa.

Estas soluções têm já algum tempo e têm tido atualizações. “No caso da Infralobo começou com uma tecnologia de IoT que depois foi evoluindo e agora usa uma mais recente, que é o narrow band IoT – uma rede que acabámos de lançar há seis meses, que tem características específicas para este tipo de situações”, explica Mário Sousa. Na prática, a narrow band IoT vem permitir que os equipamentos – que não estão ligados à rede elétrica – consumam pouca energia, com níveis de autonomia que rondam os dez anos.

A gestão de resíduos é outra das áreas que tem beneficiado com o desenvolvimento deste tipo de soluções que, tal como no caso da telemetria da água, começaram por ser pensadas para IoT e estão a passar para narrow band IoT.

A solução consiste na colocação de sensores dentro dos postos coletivos de recolha de lixo e nos ecopontos, que vão medindo os níveis de enchimento dos mesmos, enviando a informação para uma base de dados central. “A gestão da recolha destes resíduos sólidos passa a ser feita em função do estado de enchimento. Deixam de existir rotas predeterminadas, o que faz que haja uma muito maior eficácia e muito menor desperdício de consumo energético, uma vez que o camião do lixo só sai quando é efetivamente necessário”, destaca Mário Sousa.

A Câmara Municipal de Lisboa tem esta solução, que começou a ser instalada há dois anos, estando atualmente presente em 24 freguesias e há outras autarquias a analisar a instalação do sistema. “No caso da CML, a solução permitiu que tenha muito menores custos operacionais e representa uma melhoria para o ambiente. Foi claramente um caso de sucesso”, garante Mário Sousa.

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